segunda-feira, dezembro 11, 2017

Há mais de 10 anos tive a oportunidade de participar de um evento com Alvin Toffler, um dos principais futuristas do mundo que se dedica a explorar, dentre outros contextos, as tendências para o mercado corporativo. Na época o pensador americano apresentou uma visão que me marcou bastante: no futuro, a distinção não será mais entre empresas grandes e pequenas e, sim, entre mais rápidas e mais lentas (não me lembro da frase literal dele, mas o sentido era esse).
Toffler acertou em cheio. Atualmente, devido aos benefícios advindos da tecnologia, o porte da empresa já não é o único elemento de êxito de uma organização como ocorria no passado. Empresas menores prosperam em seus mercados ao serem mais ágeis, inteligentes e aproveitarem sua estrutura para serem mais flexíveis e aderentes às necessidades do mercado. E isso não tem a ver com seu tamanho.
Tudo isso evidencia a importância do aprender continuamente. A lógica é a seguinte: já que a dinâmica do mercado muda constantemente com uma velocidade incrível, é necessário aprender continuamente sobre as oportunidades advindas dessas mudanças. Uma empresa com estrutura mais enxuta tem até mais condições de ser mais permeável às oscilações do ambiente a seu redor do que uma empresa maior já que a tendência é que essas organizações tornem-se mais engessadas e pouco flexíveis.
Assim, fica definido que o aprendizado constante é uma das estratégias mais poderosas para o crescimento rápido de uma organização de menor porte.
Essa máxima não é nova. Desde que Peter Senge escreveu seu “A Quinta disciplina” há quase 35 anos (em 1990), consolidou-se a visão da “organização que aprende”. É necessário, no entanto, uma visão mais clara sobre o modelo de aprendizagem mais adequado ao atual contexto dos negócios. Está mais do que evidente que o modelo convencional, acadêmico, não atende as necessidades de empreendedores e gestores que, mesmo estando ávidos por aprender, são dragados pelas demandas do dia a dia. Sabe aquela visão de que a rotina engole a estratégia todos os dias no café da manhã? Podemos adaptar para “a rotina engole o desejo de aprender todos os dias no café da manhã”.
É imperativo refletirmos sobre o modelo de aprendizagem corporativo que irá driblar essas barreiras e tornar-se efetivamente útil e produtivo permitindo adaptar os desafios diários da rotina dos negócios com o investimento no aprender.
Percorrendo os caminhos dessa reflexão e pesquisando sobre o que está sendo desenvolvido em todo mundo nesse sentido, é possível encontrarmos um referencial simples que pode servir como uma orientação introdutória, um guia ou, como o próprio termo já o define, uma referência para lidar com esse tema.
Um modelo adequado à atual dinâmica dos mercados deve privilegiar forma e conteúdo na mesma proporção. Devido a sua disponibilidade farta, temos visto praticamente uma “comoditização” dos conteúdos disponíveis. Ter acesso a conteúdo já não é um diferencial há anos. O fato concreto, porém, é que a maioria do conteúdo disponível é apresentado em sua forma bruta, rústica, sem nenhum tipo de tratamento orientado ao interlocutor. Temos milhões de aulas disponíveis na web apresentadas pelos principais experts do mundo. O formato, porém, na esmagadora das vezes restringe-se a uma câmera aberta captando uma aula apresentada em qualquer universidade do mundo. A educação corporativa deve valer-se do potencial apresentado pela tecnologia e pelas novas linguagens para incorporar em seu modelo o referencial do entretenimento como forma. Gosto muito do conceito de “edutainment” que alia, em sua definição, as esferas da educação e do entretenimento em uma mesma proposta de valor.
Privilegiar a forma não significa desprestigiar o conteúdo. Na realidade, esse trade-off não existe. Não podemos correr o risco de seguir o caminho adotado pela mídia de massa mundialmente que, em nome de uma forma apetitosa, acabou relevando o conteúdo a um segundo plano, “emburrecendo” sua audiência com programas pobres e medíocres. Obviamente é possível termos conteúdo de boa qualidade com forma atraente na mesma proposição.
É essencial desenvolvermos modelos que atraiam o interlocutor, para que ele tenha vontade de devorar aquele conteúdo e queira sua continuidade. Você já deve ter notado que o benchmark desse modelo é a linguagem televisa que ao longo de décadas conseguiu conquistar sua audiência dessa maneira (deixando de lado a natureza do conteúdo, as novelas e seriados são uma excelente referência, nesse sentido).
Apenas aliar a forma e conteúdo, no entanto, não é o suficiente. O mercado corporativo requer prática, conceitos que sejam aplicados no dia a dia e que se traduzam em soluções para os problemas e desafios por quais as organizações tem de lidar cotidianamente. Aquela visão de que “o mundo não paga pelo que você sabe e sim pelo que você faz” é mais do que aplicável ao ambiente dos negócios. Nenhum empreendedor ou executivo será recompensado por ter notório conhecimento em qualquer tema e sim por suas ações práticas, ou seja, pela execução de seu potencial intelectual.
O modelo de aprendizagem no ambiente de negócios deve aliar conceitos teóricos, experimentais e prática. Chega de digressões intelectuais a respeito de temas tão intangíveis e distantes do empreendedor como modelos matemáticos de avaliação da competitividade em seu setor. É necessário selecionar temas relevantes, estratégicos, porém com a premissa de serem próximos a realidade das organizações e seus interlocutores. Assim, a aplicação prática desses conceitos deve ser um pré-requisito do processo de aprendizado. Deve haver uma premissa de que nunca seja colocado o foco em um tema ou conteúdo que não seja passível de experiência prática na realidade do interlocutor. Ou a academia se aproxima dessa realidade ou ela será simplesmente abandonada por esse mercado (é o que já está acontecendo, a propósito).
A caminhada rumo a um modelo de aprendizado que realmente funcione no mercado corporativo, sobretudo tendo como foco principal o empreendedor, é longa e ainda estamos apenas em seu início. Essas ideias, no entanto, são um ponto de partida para investirmos na efetividade dessas ações. No passado, uma métrica aceitável de sucesso para aprendizado dentro das empresas era o número de horas que cada profissional passava em treinamento. Nada mais distante da realidade atual, na qual quantidade não é qualidade. Indicadores inadequados dirigem ações inadequadas. Simples assim.
A boa notícia é que a tecnologia atual e futura permite, de forma inédita, a atender aos requisitos de construir um modelo de educação que realmente funcione no ambiente corporativo. O primeiro passo é efetivamente valorizar a necessidade do aprendizado como mola propulsora do desenvolvimento das organizações e disponibilizar-se a investir nessa proposição e esforço. Seguramente temos disponível e veremos surgir inúmeras alternativas relevantes que darão sua contribuição a esse desafio.
No final do dia, voltamos ao primeiro parágrafo desse artigo conjugando a visão de Alvin Toffler com a do Peter Senge: não serão as maiores empresas que prosperarão e sim as mais ágeis, as que aprenderem mais depressa. Opa, rolou um Darwin aí, não é? Bom sinal.

Sandro Magaldi é CEO e co-fundador do meuSucesso.com, a maior plataforma de empreendedorismo do Brasil impactando milhões de empreendedores mensalmente. É considerado um dos maiores experts em Gestão Estratégica de Vendas do país e autor do livro “Vendas 3.0: Reposicionando o vendedor, a equipe de vendas e toda a organização” definido pelo Pai do Marketing moderno Philip Kotler como “um daqueles livros que nos faz pensar”.

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