segunda-feira, dezembro 11, 2017

Descobriram o Bitcoin. Subitamente, em todas as rodas de conversa, todos entendem – ou pelo menos, demonstram entender – do fenômeno. Como todo tema que alcança o status instantâneo de hype, há um verdadeiro efeito manada em um movimento que intitulo como “efeito Paleteria” (lembra do boom dos sorvetes mexicanos?).

Não sou um expert no tema, portanto não tenho autoridade para afirmar se é ou não uma bolha, seus riscos etc. No entanto, está passando despercebido da maioria o que está por trás das criptomoedas e que pode dizer muito respeito a todo empreendedor e negócio no Brasil.

Tive a oportunidade de assistir a palestra – animal – de Salim Ismail, um dos fundadores da Singularity University, na HSM Expo desse ano. Um dos temas que mais me chamou a atenção (e olha que foram muitos insights) foi quando o autor de “Organizações Exponenciais” (leitura indispensável para esses novos tempos) afirmou que um dos principais fenômenos a ser observado daqui por diante é o Blockchain.

O Fórum Econômico Mundial, um dos principais centros de pensamento do planeta, sentenciou que o Blockchain é tecnologia que irá moldar o futuro.

Minha experiência mostra que esse é o tipo de insight que não pode ser deixado de lado. Arregacei as mangas e comecei um mergulho nesse universo pesquisando diversas fontes para me nutrir de informações sobre a nova tecnologia.

O Blockchain é a infraestrutura que suporta o Bitcoin. Trata-se da rede de bases de dados e registros distribuídos em milhões de computadores espalhados globalmente onde a autenticação das informações acontece de forma descentralizada por meio de agentes espalhados em todo o mundo. Por esse motivo também é conhecido como protocolo de confiança já que garante a autenticidade das informações. No caso dos Bitcoins é o sistema que certifica a posse e intercâmbio das moedas virtuais entre quem as transaciona. Sem o Blockchain não há Bitcoin ou qualquer criptomoeda.

Uma característica essencial para entender o porquê existe uma visão tão transformadora sobre a influência da tecnologia diz respeito ao fato de que não existe uma instituição central por trás dela. Ela se desenvolve de forma totalmente descentralizada e pulverizada. Milhões de agentes autenticadores em todo planeta garantam a veracidade das informações e são remunerados por meio de moedas virtuais por sua ação.

Para entender seu alcance além das criptomoedas, pesquisei aplicações da tecnologia que estão acontecendo pelo mundo. Confesso que me surpreendi com seus possíveis usos e experimentações.

A mais óbvia diz respeito à ruptura em toda cadeia atual de certificações que existe, sobretudo em países como o Brasil. A tecnologia tem potencial para, simplesmente, exterminar os Cartórios, Despachantes e todo tipo de intermediário que só existe para garantir a autenticidade de informações.

Que felicidade, hein?

Para estar mais claro o impacto de nosso modelo cartorial, retrógrado, basta se recordar dos momentos em que você teve de comercializar uma casa, abrir uma empresa ou, até mesmo, simplesmente, vender um carro. A indústria dos Cartórios cresceu em nosso país tendo como vetor a visão corrente por aqui de que a princípio todos são culpados e é necessário que uma entidade terceira autentique que você é você mesmo.

Devido ao risco de fraudes nunca será possível eliminar a figura das autenticações. O Blockchain, no entanto, rompe o monopólio hereditário dos Cartórios descentralizando o processo por meio de sua rede com agentes independentes que certificam a veracidade das informações que trafegam em sua rede. As possibilidades de sua utilização são para emissão de passaportes, patentes, registros de posse, certidões de casamento e assim por diante.

Além do óbvio, no entanto, as aplicações da tecnologia vão muito mais longe. Imagine todas as informações que requerem um intermediário para certificar sua autenticidade. São muitas como, por exemplo, as transações financeiras. Quem autentica o volume de dinheiro que você tem propriedade? Ou então, quem garante que você tem disponível o valor requerido quando adquire algum produto por cartão de crédito ou outro sistema? É a instituição financeira que, nesses casos, atua como um intermediário certificador do mercado financeiro.

Essa figura pode ser descartada, se houver uma entidade independente que garanta a veracidade das informações transacionadas. Essa entidade pode ser o Blockchain com a peculiaridade que não existe nenhum proprietário desse processo, já que ele ocorre descentralizadamente por meio de uma rede com milhões de indivíduos ou máquinas.

Já existem iniciativas de utilização do Blockchain em substituição aos tradicionais meios de pagamento. Nessas transações não existe a figura de nenhum agente financeiro como interveniente bancário, banco etc. Uma disrupção completa e irrestrita em uma cadeia que existe há séculos.

Essa ruptura causa calafrios aos Governos, sobretudo os democráticos, com a perspectiva da perda de autoridade dos Bancos Centrais que podem se tornar irrelevantes em um mundo com poder descentralizado. Como ficará a relação de forças em uma sociedade com essas características?

Outra possibilidade de adoção do Blockchain repousa nas atividades que requerem a garantia do sigilo das informações. As maiores ameaças em situações com esse perfil é que sempre há um agente que tem posse sobre esses dados cujo poder e riscos de mau uso crescem exponencialmente conforme aumenta o volume de informações gerenciadas formando um ciclo vicioso perigosíssimo.

Uma rede descentralizada não pressupõe a necessidade desse poderoso guardião. Com isso, já existem diversas iniciativas acontecendo na área médica no que tange a armazenamento e compartilhando de informações de pacientes. O protocolo de confiança garante a segurança no manuseio desses dados mitigando o risco dessas informações caírem em mãos erradas. Essa tendência tende a se acentuar, por exemplo, na medida em que os custos para decodificação do DNA se torna cada vez mais acessível a qualquer cidadão. Creio que você não gostaria que seu DNA caísse em mãos erradas e você se deparasse com um clone seu andando pelas ruas, correto?

Uma última aplicação muito instigante que encontrei da tecnologia é na garantia de processos íntegros na relação da iniciativa privada com a pública. Já existe uma experiência na Ucrânia onde o Blockchain foi adotado visando o desenvolvimento de uma plataforma íntegra para a realização de leilões, imune a interferências ilícitas de agentes que atuam nas lacunas deixadas pelos sistemas atuais. A rede garante a acuracidade das informações e total sigilo de seus emissores enquanto o processo não se encerra. Todo processo é “vigiado” por milhões de computadores espalhados por todo mundo que garantem a ocultação dos participantes do processo por meio de processos criptográficos.

Também já existem planos, em alguns países, para que o processo eleitoral aconteça utilizando a Blockchain como tecnologia.

Como toda nova tecnologia, seu futuro ainda é cercado de suposições e incertezas. As aplicações, apesar de multidiversas, ainda são experimentais. O fato concreto, no entanto, é que quem bebe da fonte primeiro, bebe água limpa. A velocidade das transformações imprime um ritmo alucinante para a sociedade e negócios. As melhorias incrementais são colocadas em cheque diariamente e a adoção de novas tecnologias geram rupturas em tradicionais setores da economia.

É necessário experimentar novas alternativas e soluções tendo a perspectiva do erro como parte do processo de aprendizado. Conservadorismo não combina com um ambiente em constante e súbito movimento.

O Blockchain é só a ponta de um iceberg. Mais do que uma tecnologia, ele traz consigo questões essenciais que irão mexer com a estrutura clássica da sociedade forjada ao longo de séculos. Não me parece que o caminho seja ignorar suas possibilidades deixando que o medo e o comodismo tomem conta.

Não é nada fácil refletir sobre essas perspectivas. Porém, é necessário.

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Sandro Magaldi é CEO e co-fundador do meuSucesso.com, a maior plataforma de empreendedorismo do Brasil impactando milhões de empreendedores mensalmente. É considerado um dos maiores experts em Gestão Estratégica de Vendas do país e autor do livro “Vendas 3.0: Reposicionando o vendedor, a equipe de vendas e toda a organização” definido pelo Pai do Marketing moderno Philip Kotler como “um daqueles livros que nos faz pensar”.

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